Entre perdas e derrotas, o (des)humano habita

     Como calar-me quando meu coração grita? Desejo anistia do meu eu. É a terceira vez na semana que meu corpo expulsa o alimento que ingeri. Contingências em plenitude. Tênue é a linha entre o emocional e a imunidade. A entrega dos pontos também sepulta. Sombra fria em que eu adendo. Corpo padecendo de febres e sorrisos, do qual somente presença é cura.  Enfio o dedo na garganta, como fazia Kierkegaard com a existência. Sinto o gosto de jogo perdido, de vida findada.

     Giorgio Agamben dizia que há vida na degradação mais extrema. Afirmou que o homem possui suprema capacidade de adaptação à situações caóticas, nas quais parece impossível sobreviver. Há tempos remotos eu daria as mãos a Agamben e, juntos, comporíamos providos de forças ocultas. Já fui inteira resiliência e luta. O vazio do quarto revela-me: hoje, não. Adentrei em meu avesso. Tornei-me toda contrários. Abro portas e escancaro janelas. Entre mim e a dor, escolho ser passiva. Deixo que ela entre, fazendo de mim sua morada. A culpa é minha casa, a mobília é minha resignação e as grades são meu castigo. Reside em mim o velho monge Adso de Melk.

     Escritores são os piores. Uma gangue de fajutos, como dizia Bukowski. Quem dera eu possuir outra propensão. Ser afeita à melodia que salva, ser dona da leveza da bailarina, poder dançar com o pincel na tela. A palavra que aqui se encontra, primeiramente em mim se afoga. Como navio em meu porto, pede-me que recolha a âncora, desejoso de brisas tempestivas. Consoantes que mergulham, vogais que imploram ar. A palavra nasceu para ser expelida, transfigurando a alma. Quando contida, dilacera. Dói. Escrever é mais necessidade que arte. Escreve quem foi silenciado e tem na palavra o seu único grito.

     Enquanto navego os olhos pelo teto, dou-me conta do peso daquela frase de Vinicius de Moraes: amor só é bom se doer. A fita métrica do amor é a dor. Amor que arde, rosa que se colhe à beira do precipício. Quanto mais sofrido, mais belo o é. Romeu e Julieta são prova eterna de tal afirmação. Amor cativeiro, como disse Shakespeare. Morte mútua. Amor doentio. Sol de eros, contraste de ágape com nuvens de tânatos. Indago com João Guimarães Rosa: amor não é remédio? Amor não é saúde? Eu não sei, eu não sei…

     Rubem Alves disse sabiamente no final de sua vida que viver é estar jogando na roleta, sem fim. Salvífico. Vítima, vilão e herói. As máscaras estão postas sobre  a mesa. Jogar exige esperteza e viver é estar em constante aposta. Amar também. Há os que vivem, adentrando em campo, recebendo todos os riscos que o amor detém. Há os que sobrevivem, optando pela torcida ao outro, nascendo na arquibancada. E ainda há aqueles que, como eu, morrem: bolorando no banco de reservas. Passei por esse crivo decisório, no qual você foi o juiz. Eu fui silenciada. Na disputa entre eros e ágape, recebi o cartão vermelho que me põe fora do jogo. Perdedora. Assim como Chico Buarque, tornei-me jogo de azar.

     Os jogos paradisíacos já me foram privado há muito; não mais os desejo, nem mesmo lhes sou merecedora. Somente aguardo, por inevitabilidade da minha natureza humana, pelo tempo de um placar mais ameno, desprovido de tamanha pobreza ou, quando menos, dos oásis que nos salvam, ainda que temporariamente, do deserto árido e solitário da perda. Tranco a porta, açorada pela ilusória proteção das chaves. Em posição fetal, recolho-me no leito, desejosa de ser reconduzida ao ventre de minha mãe, de iniciar o jogo desde o primeiro instante.

     Dostoiévski perdeu-se nas roletas, Saroyan perdeu-se nos hipódromos, Fante perdeu-se nas cartas e eu perdi-me em você. 

Gabriela Buraick

 

 

 

 

 

 

 

13 comentários Adicione o seu

  1. Frugal Simple disse:

    Vc escreve tão bem Gabriela. Isso é tão raro hoje em dia. Me fez lembrar da época que eu escrevia mais ou menos assim, para mim mesmo, passei anos enviando emails para mim mesmo.
    Esplêndido. Continue escrevendo.
    Boa semana!

    Curtido por 3 pessoas

    1. Obrigada!
      Fico feliz por ter sido motivo de uma lembrança tão singela.
      Uma boa semana pra ti também!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Rui Santos disse:

    Como é bom visitar as esquinas dos seus parágrafos. Muita gente passa despercebida por elas, seguindo em frente, mas há muitos detalhes e nuances que só se percebem dobrando e caminhando na transversal da via explícita…não precisa me dizer “volte sempre”; eu é que lhe peço isso.

    Curtido por 3 pessoas

    1. Eu adoro quem demora. Queria eu poder lhe oferecer uma xícara de café (ou chá!?) para agradecer tamanha visita.
      Ao aguardo do próximo encontro, então.

      Curtido por 2 pessoas

  3. Sempre uma maré de palavras e sentimentos intensos, citações que remetem à lembranças e analogias das mais profundas. Parabéns novamente e uma ótima semana 😉

    Curtido por 3 pessoas

    1. E eu sempre grata, Julliano!
      Obrigada. Um ótimo final de semana pra ti.

      Curtido por 1 pessoa

  4. Tava aqui tentando escrever algo, mas não sei…
    Sem dúvida, é o texto que você escreveu e que mais dialogou comigo, que mais gostei.
    Entretanto ainda não tenho muito bem a compreensão desse dialogo, por isso, lerei outras vezes.

    Curtido por 3 pessoas

  5. Lunna Guedes disse:

    Ah, que belo texto.
    Tenho uma revista literária artesanal e a edição próxima que irei lançar combina com esse seu ritmo. Vou introduzir ao diálogo Emily Dickinson, ‘aceitas-me?’

    Meu email é lunnaguedes@gmail.com, se quiseres me brindar com essas linhas por lá.

    Bacio

    Curtido por 2 pessoas

    1. Que singelo, fico lisonjeada!
      O mar azul é todo teu, adentre quando quiseres…

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  6. mariel disse:

    Anistia é para os culpados, para os exilados pela violência que pode se revelar de muitas formas. Não peça anistia para si mesma. Continue sendo o que tens que ser.

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  7. AK disse:

    O teu texto, pelo menos a parte inicial, fez-me pensar em António Lobo Antunes: “estar doente é uma indignidade”.
    Força!

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  8. Claudio disse:

    Parabéns gabriela, Sigo te acompanhando, você cada dia evolui mais.

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