Lembranças que não desacontecem o acontecido

       Há um mistério inquietante no silencioso do dia que ainda adormece. Encontro-me na janela do meu quarto, ansiando o seu despertar. Aqueço as mãos numa xícara de chá camomila quando ela chega trazendo, consigo, o reverso do crepúsculo. Vem de mansinho, fazendo da minha escuridão, intervalo, e (re)nascendo junto do sol como que por descuido, invadindo-me de luzes. Raios que carregam as minhas lembranças de menina, fazendo-me retroceder no tempo, desejando não possuir mais de um metro de altura.

     As reminiscências polvilhadas em minh’alma são postas, com facilidade, sobre a mesa. Recordo-me com plenitude do seu olhar melancólico que se fazia sentinela. Fiel observância de avó. Construtora da minha coragem. Desde muito cedo suas mãos foram o meu amparo quando eu tentava firmar os primeiros passos. Sempre que eu pousei ao chão, seus braços me enlaçaram na ternura de um abraço que hoje é privado de respiro.

     Minha avó, minha contemplação. Seu corpo franzino era o paradoxo da sua força interior. Enquanto minha mãe me arquitetou no ventre, minha avó teceu meus olhos. Foi com ela que aprendi a enxergar o sagrado da vida. A sua fala de aconchego. A exata medida que as minhas mãos teriam um dia. Os olhos profundos que se faziam compreensão na minha estreiteza… As lembranças, aos poucos, se desfazem e a realidade vai sendo devolvida. A dor, calada no retrocesso da invenção da sua chegada, ganha presença. Não há retorno. A sua vida escorreu pelos vãos dos meus dedos e não há intervalo capaz de desacontecer o acontecido.

     A vida segue e eu sigo naufragada nas minhas memórias, inventando a sua presença. Nietzsche dizia que o que não nos mata, torna-nos mais fortes. Discordo com veemência. A cicatriz que insiste em ficar exposta é a prova da vulnerabilidade ganha. Do aprendizado restou que o amor acalenta as feridas da alma, mas é incapaz de curar o corpo que se despede enfermo. O seu egresso me impeliu para os subterrâneos da condição humana. Impossível é afastar a realidade e, por instinto, adquiro uma vida póstuma. A inocência deu lugar para o breve e certeiro fim que amedronta. Eu conheci a fragilidade da insuficiência humana no momento da sua partida e, desde então, já não enxergo mais razão, além de cultivar – vivo- o brilho do seu olhar em minha mente.

     Da janela vejo o sol que irradia, lá fora. Pássaros cantando. O vento a dançar com as folhas do chão. Um gato a espreita em cima de uma árvore. Olho tudo, mas nada vejo. O mundo que outrora era salvífico, perdeu o encanto. Eu desaprendi. Nada mais me sensibiliza ou me afeta. Adentrei no assombro dos breus. Uma orfandade de sentido, da qual nenhuma alma humana pode me salvar, além da sua.

     Salva-me, eu grito.

Gabriela Buraick

9 comentários Adicione o seu

  1. Alan Martins disse:

    Lindo texto. Suas palavras são muito poéticas.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Olhos transpirando aqui…linda homenagem. Força para prosseguir 💪🏻😊

    Curtido por 2 pessoas

  3. Rui Santos disse:

    Como pode um texto tão vívido ser categorizado como “ficção”? PS.: é sempre um prazer retornar aqui.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sabe, Paulino… Lacan dizia que a verdade só pode ser dita nas malhas da ficção. E eu? Eu acho que concordo. Até acrescento: escrever e assinar embaixo tem um peso danado! Assumir tamanho sofrimento requer pouco orgulho e muita transparência. É mais bonito (ou mais fácil!?) quando a gente torna uma verdade triste, duvidosa.
      PS. O prazer do seu retorno é maior do que recíproco.

      Curtido por 2 pessoas

  4. Escrevi um texto sobre minha avó. Mas era uma “tonalidade” bem diferente. Tão melancólica quanto, uma nostalgia a bebericadas de café e poeria.

    Curtir

  5. bordinburke disse:

    Não recordo quem disse que “se os avós soubessem como é bom ter netos, teriam-os tido antes dos filhos”. Incrível o amor que eles sentem por nós. Eu já perdi os meus, mas o que eles me ensinaram, por meio de raros conselhos e numerosos bons exemplos, sempre vai fazer parte de cada movimento meu. Parabéns pela poesia em prosa.

    Curtir

  6. Maravilhoso! Lindo,como sempre!

    Gabriela, indiquei o seu blog ao Mystery Blogguer Award,desculpa te avisar por aqui, mas é que não encontrei outro contato.

    Te desejo ainda mais sucesso!
    Beijos

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s