Castigo sem crime

     Eu observo a sua chegada. Cabelo castanho junto de uma boina preta. Leveza doce. Possui um toque de Audrey Hepburn com uma pitada de Elizabeth Taylor. Enquanto ela adentra no recinto dos livros, ele levanta a cabeça em sua direção. A magia ganha espaço.

     Estou sentada na cafeteria da livraria. A cena que se faz presente suplanta o livro que tenho em mãos. A desordem está posta e eles, dispostos, apostam. Caminham, os dois, para o encontro. O inconsciente em sua plenitude. Com o desalinho provocado pelo primeiro olhar, a via pragmática torna-se dispensável. Urgência sedenta clama e o desconhecido provoca. E toca. Diante das prateleiras ela procura por Dostoiévski e ele, por Umberto Eco. Ela, egocêntrica, anda alheia com o mundo ao seu redor. A energia dança e o corpo cumpre o seu destino ao atingir outra matéria humana por acaso do descuido. Colisão mútua. Ela, feito passarinho avoado, quase pousa ao chão, mas é enlaçada por braços que capturam o corpo e retorna-o, fisicamente, na posição de outrora. Com o toque dos corpos o abandono do castigo é dado. O livro que achara nas prateleiras foi entregue ao chão. A vida em chamas. Heresias já são bem vindas. Não há crime, não há pecado, o direito à renúncia inexiste. O Nome da Rosa ganha novo sentido. Da minha visão não ouço fala, mas sinto que alma mútua incessante, grita. Vendaval de sensações, palavras minguadas. Ela pede desculpas. Ele pega o livro que ela deixou pousar no chão. Ao devolvê-lo, o toque dos dedos. Ela ri e esconde o rosto. Dois sujeitos sem jeito. Entre o sagrado e o profano, é que o amor habita.

     Ela lhe agradece e se foge até o caixa para fazer o pagamento. Ele a acompanha com os olhos. Ela leva consigo “Crime e Castigo” de Dostoiévski. Compra desnecessária. Da culpa de Raskólnikov ela já entende bem, mesmo sem ter cometido crime. Tem gente que é assim, nasceu fadado a não se permitir, com a crença de que a gente tem de ser infeliz. Vive nos livros o que não vive na vida.

    Sinto-me marejada pela tristeza. Não gostaria de ver o que meus olhos, rasos, contemplam neste momento. A moça da boina preta caminha em direção à saída. Ele tenta uma despedida, mas ela não permite. Eu senti o cheiro, eu vi o amor clamando pouso. Que diabos aconteceu na vida desta moça para ser assim tão dura consigo mesma? Acabo de ler no livro que tenho em mãos que, para que seja amor, é necessário que o acaso se encontre posto desde o primeiro instante como pássaros nos ombros de São Francisco. É, sem duvidas, insustentável (a) leveza do ser. Sinto vontade de levantar da cadeira em que me encontro, correr até a moça e dizer: “não vá embora. Volte! Viva! Entregue-se ao acaso, mesmo que doa.” Mas a vida também é tragédia e a perda, diária. O amor é segredo que, mesmo quando desvendado, se faz mistério. Alguém, por gentileza, transforme essa água em vinho. Estou cansada do monocromático, essa indisposição do mundo me assusta. A perco de vista. Minha narrativa acaba de ser invalidada e eu não sei se me sinto mais triste por esse motivo ou pela moça que não se permite.

     Mais de uma hora se passou e eu ainda estou na cafeteria da livraria. Não sei se esse será mais um dos textos que adentra na lata de lixo ou dos que deixo alguém ler. Ela foi embora, ele também, uns entraram e saíram e outros, assim como eu, permanecem. Enquanto refletia sobre o que meus olhos presenciaram, lembrei-me, na tentativa de compreensão e auto-consolo, de algo que li de Zygmunt Bauman, há algum tempo, naquele seu livrinho que fala sobre uma espécie de amor líquido, da qual desconheço por experiência. Contou-me ele que a nossa incompetência em escolher entre atração e repulsão, entre o ir e o ficar, apenas redunda a nossa incapacidade de agir. Tornamo-nos seres incapazes, razoáveis. Imperdoável. Dúvidas que nos traem, o medo de arriscar, a perda ao invés do ganho. Não há incertezas de que Bauman leu Shakespeare. Arriscar é correr riscos, estamos todos sob o gelo fino. Indivíduos frágeis sob uma fina camada de gelo: parar significa morrer congelado, sobreviver é andar o mais rápido possível.

     Com todo o meu respeito e admiração, Bauman, eu me recuso a ser taxada de líquida. Minhas ações não condizem com tal afirmação, minha memória acesa é testemunha da minha solidez. Só me derramo na ficção. Eu creio no abstrato que meus olhos desenharam e minha mente engendrou. Sou desejosa de que amor se solidifique. Bebo mais um gole de café. É mania minha embelezar a vida.  Fecho meu livro do Milan Kundera. Na observação da vida alheia, encontro o autoconhecimento. Quem dera eu ter essa indisposição e sensatez. Amar é andar de mãos atadas com a (lou)cura. Sorte (azar!?) a minha que o absurdo dorme comigo desde o berço. É no medo da entrega que eu regozijo. Eu não sigo o caminho oposto, não fujo, eu não nasci para o mundo líquido. Do amor não abdico, mesmo quando ele não existe, eu o invento.

Gabriela Buraick

14 comentários Adicione o seu

  1. Com o nome do meu blog seria impossivel não vir aqui e apreciar tal gostosura!

    Caralho guria, tu escreve muito bem. Que texto maravilhoso! E que raiva que ele dá por sermos tao espectador quanto o narrador. O pior é que olhamos e pensamos em mil possibilidades jogadas fora que a dupla em foco perdeu, sabendo que 5 minutos depois do fato ocorrido os dois pensariam nessas mesma mil possibilidade. Qual a dificuldade da entrega? O que nos tira a coragem? Talvez seja a surpresa de um momento não planejado. Temos forças para lutar e socar a ponta da faca quantas vezes forem necessário desde que tenhamos bem claro em mente o que queremos. Quando existe um fator surpresa que faz o acaso presente, perdemos por momento a capacidade do raciocinio, o pulsar acelerado reconhecemos como medo e não oportunidade. Deixamos passar.. Deixamos nos arrepender. Sofremos o castigo por medo de cometer um crime :\

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    1. E assim seguem: castigados. Perdendo felicidades, sorrisos e aprendizados.
      “Sofremos o castigo por medo de cometer um crime”, acrescento: mais triste ainda é quando castigamo-nos por um crime cometido por outrem. Um sepulcro também compreendido por ti? Palpito que sim. Desejo que não…
      E nós: Sigamos, juntos!
      Grata – e não é pouco.

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      1. “mais triste ainda é quando castigamo-nos por um crime cometido por outrem.”
        Isso é simplesmente fantástico!

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  2. mariel disse:

    Audrey Hepburn com uma pitada de Elizabeth Taylor? Então não tem jeito. Ela é o ser. Ele, o nada.

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    1. Hahaha
      Inegável. Ela pode!
      É sempre um sorriso te ver por aqui, Mariel.

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  3. AK disse:

    “Do amor não abdico, mesmo quando ele não existe, eu o invento. ” Essa frase/ideia/imagem é linda…

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  4. mariel disse:

    Então são dois sorrindo. Adoro vir aqui

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  5. Muito bom! Gostei da moça… uma mistura de belezas que não passam despercebido, com certeza! Parabéns pelo texto! 🙂

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    1. Obrigada! Fico feliz que tenha gostado, Marcelo! 🙂

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  6. Fiquei pensando nessa pessoa Audrey Hepburn misturada com Elisabeth Taylor, carregando a culpa do Haskolnikov…..Ainda estou imaginando…..

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    1. Seria uma espécie de Madame Bovary? Ahahah
      Obrigada, Juliane. É sempre um prazer te ver por aqui!

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  7. hefh disse:

    Dificil postar algum comentário diante da beleza do seu texto, porque é terminativo, sábio, competente e não comporta qualquer tipo de ilação sem o risco de alterá-lo. Como se diz na gíria mineira: ” se melhorar piora”.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Acredito que qualquer palavra da minha parte é insuficiente para demonstrar meu agradecimento. Fica o meu abraço, portanto!

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