A contemplação do sagrado 

        Suspendo a continuação da minha estrada por imposição de um semáforo vermelho que impede meu retorno sem pausas. Enquanto troco a música que toca no carro, a imagem invade meus olhos. Uma mulher ruiva correndo em plena faixa de pedestres. Percebo em seu rosto breve a ânsia de chegar. Tenho encontrado gente muito sofredora das angústias. Fruto do moderno (?) contexto de pressas e urgências que nos cercam. Demasiadas interpelações. O corpo único que se faz humano ao adentrar na realidade muita das agendas e compromissos. Minha alma é antiga, disso não me restam dúvidas. Enquanto meu corpo segue inundado pelas estruturas deste mundo líquido, minha alma, quase sufocada, grita desejosa de águas mais serenas. 

        Já fui filha da angústia. Tempos difíceis e atípicos, mas aprendi com o descaminho. Sobretudo a olhar para o meu redor. Não comprei o que me vendem. Eu não quero proteção. Eu não desejo a venda que tapa os olhos. Eu quero ver o mundo, mesmo que doa. Escolho ser sensível as desgraças e as belezas que nos envolvem. O dolorido da vida é prenhe de formosura. Um avolumado de contradição que pertence a ordem do mistério. Quem não está disposto a enxergar os males contemporâneos, também não adentra no repouso do belo.

        O semáforo se enche de esperança e eu continuo o meu destino. Repenso na mulher ruiva que fez seus cabelos balançarem ao vento da impaciência. Qual seria a chegada que lhe desejava sem demoras?  Um filho a sua espera no colégio? O ônibus que se vai sem aguardo? Um amor que partirá sem o seu pedido para ficar? Interpelações, apenas. São poucas coisas que merecem a inquietude no leve caminhar. O que eu desejo para a ruiva é que seu motivo seja grande, assim como a sua pressa. 

          Durante a minha estrada avisto despedida. Frente a uma casa amarela três pessoas se destituirão da presença trina. Avó, mãe e filho. Três gerações, uma história. A partir da minha observação, intuo que o menino partirá com a de mais anos. Enquanto a mãe se apressa em suas últimas recomendações, percebo que sua face escancara preocupação. Um abraço apertado que no momento do distanciar convoca a alforria para a partida. A mãe ata uma bolsa azul nas costas da sua continuidade e lhe tatua um beijo na testa. Enquanto o filho que nasceu de suas entranhas adentra no carro, uma de suas mãos percorre estradas pelos cabelos. O corpo materno se firma no portão da casa. Não sou capaz de compreender o que se passa em seu interior. O desdobramento filial. Sangue do seu sangue, ossos construídos de sua matéria. As amarras do amor que nos rasgam, o corpo filial a vencer o tempo do colo no inevitável rumo de crescer. O veículo que o levará, junto da avó, para longe do ventre que o trouxe ao mundo. A simbiose findada. A ciranda do amor. O destino misteriosamente solitário do qual nenhuma outra presença é capaz de nos livrar. 

         Pelo retrovisor vejo que o carro se afasta e um último aceno é dado. A cena se desfaz e eu retomo a minha realidade una. Foi com o sagrado da contemplação que aprendi a regressar a minha angústia. Sorrio enquanto o crepúsculo das horas vem comigo salmodiar. Eu não sou indiferente ao simbólico dos detalhes terrenos. Diante da impotência humana me certifico de que a pressa é em vão e o afastamento é um corte necessário, mas suturado sempre que preciso. Eu creio que a vida é bela, de que a ruiva chega e de que o menino volta. A vida me afeta. Eu creio e sereno. 

9 comentários Adicione o seu

  1. Paulino disse:

    Você é incrível.

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  2. Belíssima reflexão! “Eu creio e Sereno”

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  3. Tiago Medina disse:

    É fantástico olhar as pessoas na rua e imaginar suas histórias. Cada pessoa é uma fonte inesgotável de contos e sentimentos. É um grande exercício imaginar o que tem para contar cada ser que nos rodeia.

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    1. Cada pessoa é um mundo, sempre digo. Imaginá-lo é exercício que me salva.
      E cá entre nós, só melhor que observá-las, é eternizá-las no papel (ou numa telha?).
      Um abraço.

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  4. AK disse:

    Tá verde, pode seguir…. 😛

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  5. Lunna Guedes disse:

    Viajei aqui com todas as imagens que se ergueram em meu íntimo. Fui e voltei para dentro do abraço apertado. Adoro espiar a realidade e voltar de lá com qualquer coisa minha, alheia.
    É, a vida também me afeta. rs

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  6. Lindo texto que retrata os grandes acontecimentos das miudezas diárias que muitas vezes não percebemos. Parabéns!

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    1. Leandro Bertoldo!!!
      Estou lisonjeada e muito grata!

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      1. Disponha, Gabriela! Você tem livros publicados?

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