A singularidade que amedronta

     Abro involuntariamente as pálpebras. Provo o eterno crepúsculo das horas, como se estivesse a beirar os subterrâneos do mundo. Olho para o relógio atado ao criado-mudo: 3h57min. A memória ardilosa me recorda que estava a sonhar contigo, mais uma vez. Matuto: mais uma vez. Suspiro fortemente. Tento, em vão, dispensar a cruz que atei em meus braços. Cá entre nós, diga-me: como eu saio ilesa de noites em que a realidade esquece-se de prevalecer? Já não suporto mais. Estou no limite original que me expõe à desmaterialização do ocorrido. A abdicação é um direito que julgo merecer. Cada sonho é uma espada que é cravada em meu peito ao despertar para o real. O tempo afia o gume e a cada sonho uma nova cicatriz é ganha.

     Viro para o outro lado. Fecho os olhos. Aos poucos meus nervos relaxam e minha mente percorre caminhos misteriosos. Você foi minha parteira. Foi junto de ti que eu aprendi. Ensinou-me a expansão da fala, a desvergonha do gesto, o despudor do toque. Eu ocupava-me ilesa do olhar que o amor exige. Segurou-me pela mão enquanto eu dava os primeiros passos pela via que você já havia percorrido. Fez-me discípula das descobertas, mostrando-me qual era o caminho a ser trilhado. Pariu-me para a vida e depois partiu, levando o leite que me alimentava. Tenho fome, tenho sede. O aprendizado desfalece e eu me ponho ao retorno do ventre, em posição fetal. Por favor, venha me dar à luz novamente. Grito de desespero e rebeldia. Pare-me, mais uma vez.

     Deito as saudades ao lado do meu travesseiro, no lugar que era seu. Lugar que nunca mais terá retorno, sepultado e inerte, sem o seu corpo. Sinto a enormidade sufocante da sua ausência. Levanto-me da cama e pego a camisa azul esquecida na derradeira vez que nos vimos. Tecido guardião de memórias, não mais visitado pelo cheiro da pele que já foi pertença. Abraço a camisa a fim de tentar ressuscitar a presença humana, mas o acontecido não ganha retrocesso. A nossa história já adentrou no sepulcro e, com ela, levou minha disposição para a superação. Lágrimas que escorrem dos meus olhos emprestam umidade para a secura do ambiente. Como sobrevivemos após perder o plural? De que vale acordar se a minha realidade é tão distante do que eu sonhei? Não vale… Não vale…

Gabriela Buraick

22 comentários Adicione o seu

  1. weedjee disse:

    Sonhar or dreaming a nice therapy in the human beings. Obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

  2. mariel disse:

    Vale. Às vezes dói ou provoca insônia. Mas vale cada segundo, você sabe. Honre isso.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sabe, apesar do meu escrito não passar de uma triste ficção, eu acredito, como tu, que vale. Vale cada segundo, sabemos. A dor e a insônia, por vezes, são consequências por viver um grande amor. Aguardo ansiosamente as minhas…

      Curtido por 1 pessoa

  3. AK disse:

    Não sei porquê, mas ao ler este post fiquei a pensar: para separações de facto, divórcios e enviuvares não há nada melhor que substituir a nossa cama por uma cama de solteiro… assim não temos outros travesseiros nem outro lados da cama. Somos só nós sem nada ao lado…
    Que pensamentos mais tristes…
    E é culpa tua, Gabriela… 🙂

    Abraço,
    Francisco Fernandes

    Curtido por 1 pessoa

  4. li4sa disse:

    Olá, li alguns dos teus posts e adorei! Escreves muito bem, parabéns! Beijinho 😊

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fico grata e feliz que tenha vindo.
      Visitarei teu blog também. Outro beijinho 😊

      Curtido por 1 pessoa

      1. li4sa disse:

        Obrigada! ☺☺

        Curtido por 1 pessoa

  5. Você evolui a cada texto, a céleres passos. Meus parabéns 🙂

    Curtido por 1 pessoa

  6. Giovanna Gois disse:

    Te admiro mais a cada dia que passa!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sinto a sua falta. Tem dias que chega a ser excruciante, como hoje.

      Curtir

  7. Sua prosa tem nuanças interessantes. Certas sacadas que fogem do lugar comum. Acho (é uma suspeita minha) que quando você se permitir se levar menos a sério,você vai brilhar. É só uma suspeita. Abraços?

    Curtir

  8. kutukamus disse:

    A longing so strong
    To the memories bygone 🙂 🍸

    Curtido por 1 pessoa

  9. “A nossa história já adentrou no sepulcro e, com ela, levou minha disposição para a superação.”

    É a exatamente a descrição sobre aquilo que sinto, quase todos os dias antes de dormir.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu desejo que alguém acenda uma luz no teu sepulcro. Acredite, sempre há, pelo menos é o que dizem…
      Mas, enquanto isso não acontece, segue escrevendo que eu sigo te lendo.
      Há compreensão aqui.
      Um abraço terno.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Você me deixa com um gosto de Bukowski na boca.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Faz assim não que a minha alma rodopia muito. Mas confesso, o escárnio eu tenho, só me falta a coragem.

        Curtido por 1 pessoa

      3. Be brave Gabi! Be BRAVE!!

        Curtido por 1 pessoa

  10. ” O acontecido não desacontece…” continuemos! Lindo texto, parabéns!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sigamos, juntas!
      Grata.

      Curtir

  11. NaRealShe disse:

    Amei seu blog incrivel POST 💜💜💜

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s