Maria, mulher vazia de graça

     Conheci Maria na delegacia. Desculpe pela rima, mas não foi proposital. A história que segue é verídica. Quem dera tivesse sido inventada pela minha viçosa imaginação. Juro que a deixaria mais digestível e feliz. Entretanto, Maria existe em carne, osso e desgraça(s). Ela nada havia feito de errado para se encontrar ali; talvez seu único erro tenha sido nascer, coisa que lhe estragou a saúde da alma e do corpo. Isento esse pequeno deslize, Maria é bondosa e pura. O motivo da sua presença num ambiente policial era comunicar o desaparecimento da filha de apenas treze anos.

     Todos os adjetivos ruins que me recordo tornam-se inócuos para retratar a pobreza da face de Maria. Minha vontade era sentar ao seu lado e juntas, de mãos atadas, chorarmos o degredo da condição humana. Suas mãos… Mãos grandes e grossas, incessantemente calejadas. Pouco conheceram do toque que acaricia. Quando começou a falar sua alma se escancarou inteira. Triste e esperado pranto. Qualquer ato meu não seria suficiente para sorvê-la da precariedade da sua condição. Lágrimas não escorriam da sua face apenas pela filha que “arrumou as malinhas e fugiu com o namorado”, mas pela morte prematura de si mesma.

     Enquanto ela chorava tendo minha mão direita como amparo, pude observá-la de perto. Tive vontade de lavar o seu cabelo. Lavar a cabeça duas vezes com xampu e depois desembaraçá-lo, fio por fio, com meu creme de pentear. Quero dispensar-lhe atenção, cortar suas unhas, passar-lhe um esmalte e um batom vermelho para acobertar a sua dor de existir. Quero fazer de Maria, mulher.

     Maria não é das que se destaca na multidão. Não atrai olhos de desejo. Maria é daquelas pessoas que morreram para a vida. Invisível. De existência dispensável. Seu rosto é testemunha de uma alma compungida. Sua voz, apesar de fraca e quase sem som, se faz doce. Possui o que chamam de fala mansa. Era a voz da resignação. Acolhi sua fraqueza sonora com compreensão e convidei-a para entrar em minha silenciosa sala de trabalho. Ela aceitou com prontidão.

     A destinei para a minha sala enquanto buscava dois copos de água. O choro foi tanto que tive a impressão de que ela secara por dentro. Ao entrar na sala encontrei-a sentada e encolhida na cadeira. Entreguei-lhe o copo de água e sentei a sua frente. Agora éramos apenas eu, Maria e sua imensa dor. Maria bebericava o copo de água igual passarinho. De mansinho, golinho por golinho. Era ambientada à moderação. Pedi que me contasse sobre seu calvário, seu penar. Tão importante quanto achar a filha de Maria – tarefa que já estava a cargo dos investigadores – era acalmá-la como mãe e mulher – tarefa que destinei a mim.

     Maria não pode subornar o destino, sua condição, desde sempre, não a permitiu. Cresceu em meio a oito homens. Frequentou a escola, aprendeu a ler e a escrever. Tinha um sonho: ser professora. Conheceu o desamparo existencial no dia em que sua mãe adentrou no silêncio do sepulcro. Com treze anos de idade teve de abandonar o posto de filha para tornar-se mãe de sete homens adultos. Seu único aprendizado desde a morte de sua mãe foi o da submissão. Abandonou os estudos, silenciou a voz e fez da resignação sua morada. Sua mãe, quando morreu, enterrou consigo a vida de Maria.

     Um ano depois de sua mãe ter partido, Maria foi colonizada. Conheceu de perto a perda da pertença que lhe restara. Foi roubada em plena missa do Padre Augusto, por um rosto misterioso. Seu coração, há muito contraído, veio a intenso reboliço. Esperança. Era Deus em sua misericórdia. Seu ladrão usava calças jeans e uma camisa de botão azul. Cabelo castanho desgrenhado e encaracolado, típico de um domingo de sol. Um par de olhos que a cor do mel sonha em alcançar. Rosto de anjo, sorriso do diabo. Mais tarde soube que se tratava de Antero, filho do fazendeiro da vila que voltara da capital.

     Foi amor à primeira vista. Amor da parte de Maria. Amor unilateral. Amor injusto. Sem juras de eternidade no portão de casa. Sem passeio pelo parque depois da missa, no domingo. Sem o olhar recíproco que incendeia a alma. Contou-me do dia em que a lucidez quase a abandonou. Acamou-se três dias na febre que acorrenta os enamorados. O motivo? Antero foi até a sua casa. Pela janela pode observar a caminhoneta que chegava. Fez questão de abrir a porteira e um sorriso. Possuía ânsia em saber o pretexto da visita. Ofereceu-lhe uma xícara de chá e a sua alma nas entrelinhas do dito. Ele recusou com uma indiferença que lhe foi mortal. Tímidas, mas inevitáveis lágrimas escorreram dos seus olhos, coisa que Antero não foi capaz de perceber. A razão da visita era outra: alargar suas posses comprando a terra em que estava pisando.

     Depois do calvário com Antero, tentou a santidade. Deus não abandona, lhe disseram. Tentou, pois ela desejava incessantemente o unguento que cicatriza as feridas, o analgésico que serena a dor. Ela desejava, sobretudo, dividir a luta com o Deus que recolhe os fardos. Mas esse Deus não encontrou. O único Deus que teve contato foi com o Deus da poda. Desde muito cedo ouviu que nenhuma folha cai do pé se o onipotente assim não desejar. Sua mãe, folha ainda verde e viçosa, passou por esse crivo decisório. Deus fechou as lâminas e sua mãe foi parar a sete palmos abaixo da terra. A sobrevivência a tornou rocha impermeável. Uma alma sem rachaduras por onde Deus pudesse entrar. 

     Foi na tarde de um domingo quente como as de Adélia Prado que a notícia decisiva chegou. O anúncio do pai estava dado: Maria se casaria com Adalberto Ferreira. Arriscou passos na direção da alforria. Puro engano, mais uma vez. Grosso como rolo de fumo, Adalberto nunca lhe dedicou um gesto de carinho ou atenção. Deu-lhe três filhos e depois partiu sem deixar rastros.

     Dia dois de novembro é a sua data preferida do ano. Dia de celebrar seu aniversário e dia dos mortos. Santa coincidência. É o dia em que as lágrimas lhe são permitidas sem culpa. Chora incansavelmente pela mulher que falece enterrada nos recônditos do seu ser. No ano passado deu-se ao luxo de presentear-se com uma florzinha. Ao deixar a loja com um vasinho de flor de lótus, ela teve certeza: não era por mais um ano de vida, mas pelo seu dia de finados. É tradição dar flores a quem já morreu.

     Nesse dia também tentou tirar a cruz que lhe atam os braços. Não se ocupou com demoras. Chegando em casa apanhou uma faca de cozinha  e tentou fazer por fora o que já estava feito por dentro. Sua filha a encontrou agonizando no chão. Seis dias na UTI. Desde então, toma medicamentos psicotrópicos e nunca mais tentou atravessar os umbrais para outra morada.

     Quando começou a falar da sua filha, não conseguiu construir a frase. A sensação de fracasso estava exposta. Maria encontrou a incapacidade da palavra e a tradução das lágrimas. Existem momentos em que apenas o silêncio é capaz do dito. Segurei a sua mão.

     Senti-me de mãos atadas. Como eu salvo essa mulher? Mil coisas se passavam em minha cabeça. Pedi seu endereço e disse que mais tarde, depois do meu expediente, eu iria até a sua casa. Era a minha vez de contar meus descaminhos. Avisei que levaria o jantar e, caso conseguisse, notícias da sua filha. Concordou com gratidão no olhar.

     Não houve mais delongas. Maria, ao sair, parou diante da porta que eu abri, olhou-me nos olhos, tentou um sorriso e disse:

     – Obrigada.

    Meus olhos instantaneamente umedeceram e eu sorri. Sem saber o que dizer, simplesmente lhe abraçei e ela correspondeu. Já valeu a pena ter vivido. A vida vale a pena, eu sei.

***

      Estou em frente ao computador tentando, humildemente, descrever o que vivi. Ainda há o que compreender e refletir, mas posso dizer que cheguei à seguinte conclusão: é para Maria(s) que eu escrevo. Uma vez me disseram que mãos calejadas não viram páginas. Eu não perco a esperança, continuo a escrever. Quem sabe um dia, se eu der sorte, Maria me lê.

 

Gabriela Buraick.

9 comentários Adicione o seu

  1. Rose disse:

    Seus textos sempre me emocionam, mas este em especial me fez derramar algumas lágrimas…

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  2. Chronosfer disse:

    Vc além de saber escrever o faz com muita sensibilidade. O meu abraço.

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  3. Parabéns, pelo texto!!! E saber que existem tantas Marias.

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  4. Você tem certos insights, certas sacadas. É. Acho que você tem alguma coisa. Aí. No nascedouro. Você é talvez pessoa a ser acompanhada. Uma suspeita minha, um insight, Uma coisa. Tem alguma receita de indignação e revolta aí que vale a pena de se ver e, como já disse, acompanhar. Mundo é estranho, pois não? Abraçaço.

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  5. Seu texto me fez viajar por caminhos que já vi, mas confesso não ter uma resposta que resolva e dê um bom final para sua história, já que as que tenho, ainda não consegui colocar um ponto final! Quanto ao texto, excelente! Obrigado pela leitura!

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  6. AK disse:

    Mais uma vez, um grande texto emotivo. É fácil querer bem a essa Maria…
    O ponto de vista na primeira pessoa é mesmo o teu forte e algumas frases são ferozes e marcantes (gostei daquela parte de morta por dentro tenta matar-se por fora também… entre outras).

    Francisco Fernandes

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  7. Paulino disse:

    É o seu primeiro texto que leio. E foi um grande começo. Parabéns pela maestria com que você foi fio condutor desta história. Parabéns de verdade! E que Maria encontre alegria e saiba que existe quem lhe deseja o bem.

    Curtido por 1 pessoa

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