O fio d’água na rocha da traição

     Escorro pela parede da sala e sento-me no chão. Fecho os olhos e uma lágrima escorre pelo meu rosto. Minhas costas vão roçando a parede na diagonal e minha cabeça pende até o chão. Apequeno-me. Sinto medo. As paredes crescem e eu vou diminuindo, minguando. Até me sentir invisível. Tornei-me microscópica. Com a traição de Antero eu fui ocultada. 

     O descortinado me coloca na precariedade da condição. Não há ação humana capaz de cessar o meu degredo. Antero me apresentou o desamparo da existência. Doze anos de convivência e descubro que meu marido possui mais de uma família para chamar de sua. Desejo abdicar. O desespero deserta-me a alma. Gandhi dizia que o perdão é a virtude dos fortes. Concordo, mas acrescento: e o esquecimento é o desespero dos fracos. Perdão cura a ferida exposta, mas não remove a cicatriz do erro. Retiro a cabeça do chão e ponho-me quase na vertical.  Misericórdia em excesso corrompe o amor-próprio, é preciso força, é preciso reagir.

   Levanto-me do chão. Uma leve tontura me turva o olhar. Subo as escadas. Cada degrau convoca uma saudade. Quando chego ao topo, quase que o acontecido retrocede, mas não permito. Eu sou mais forte que eu. Caminho em direção ao quarto. Pego uma mala. Eu só quero de mim o que é essencial. Doze anos cabem numa mala de 79 centímetros de altura. Roupas, calçados, produtos de higiene, de beleza, joias, dois livros, todas as minhas economias. Fecho a mala e ato a bolsa no braço. Olho para o pouco que eu levo comigo e em mim. Doze anos. O reconhecimento dilata as misérias. Cerro a porta do quarto.

    Traída, perto da casa dos quarenta e impossibilitada de parir filhos. O infortúnio da dúvida é posta sobre a mesa: “o que será de mim?” Arrasto os pés pela escada. Amarga-me à boca a dor da partida. Doze anos pesam como rocha. A angustiante sensação de um erro me rende às pernas. Paro no sétimo degrau da descida. Olho para baixo. Olho para cima. Continuar ou retornar? Coragem ou covardia? Escolho-me e desço o restante. Atravesso a sala e despeço-me de doze anos, para sempre.

     Na rua encontro um táxi que adentro com meu retalho de pertenças. Sem delongas o motorista me assalta:

     – Qual é o destino, senhora?

     O ruir silencioso das suas palavras desarmonizam a minha partida já tão fragilizada. “Qual é o meu destino?” Eu não sei. Tudo que eu acreditava ter em mãos se esvaiu como areia entre os dedos quando eu ouvi aquela voz. A verdade nem sempre liberta. Sinto-me acorrentada. Atendi o celular do meu marido enquanto ele tomava banho. Uma criança com voz de menina pedia pelo pai. O silêncio comeu a minha palavra. Emudeci. No outro dia segui meu marido e descobri: outra casa, outra mulher e uma filha que eu não pude lhe dar. Existência sádica.

     – São Dimas, por favor. – Disse com certeza na voz.

     Passo a viagem inteira com a face colada na janela do carro. O decorrer da paisagem  retrocede-me no tempo, reconduzindo-me ao lugar de minha nascença. Final da estrada se faz presente e eu chego ao meu destino. Desato o portão da casa que vivi desde a infância. Hoje, apenas herança e lembrança que restara de meus pais. Abro a porta não sem esforço, seguido de um tremendo barulho. Tudo encontra-se coberto com panos brancos, um tanto empoeirados. Começo a ressuscitar os móveis há muito dormentes. Em cada tecido retirado, minha fraqueza vai sendo desarmada. É a linha tênue e umbilical sendo recomposta.

     Subo para o meu antigo quarto. O tempo parece não ter passado por aqui. No chão, o tapete de urso que eu tanto gostava. Retiro o pano que cobre a penteadeira verde amadeirada e encontro a caixa de música de bailarina que meu pai presenteou-me quando completei dezoito anos. O choro me é permitido, mas o sorriso saudoso também. Abro a caixa e, para a minha surpresa, a bailarina se levanta e começa a rodar junto da melodia. Sorrio, agora mostrando os dentes. Coloco a caixinha na cabeceira da cama que, graças ao dossel, resistiu com o passar dos anos. A colcha rosa me lembra de quão amada eu fui. Retiro a colcha, os sapatos e me deito na cama. Não foi um erro ter vindo. Adormeço olhando e ouvindo a minha pequena lembrança.

     Um barulho vindo do interior da casa me desperta e o susto me preenche inteira. Levanto rápido e vou até a porta do quarto. Sinto o cheiro de café. “Desde quando ladrão faz café?” Sorrio e desço as escadas, chamando a Maria. Chegando à cozinha ouço o fogão à lenha estralar madeira seca para produzir fogo. Minha alma se aquece. Diante do fogão, coando o café, está Maria, mãe que a vida me deu quando eu já estava parida. Abraço-lhe com delongas. Não é necessário o dito, Maria me viu chegar sozinha e com uma mala. Sentamos à mesa e, juntas, partilhamos o café, as recordações e o meu penar. Maria chora a minha dor. Possui quase o dobro dos meus anos e o triplo de sensibilidade. Com Maria, minha eterna vizinha, acabo por reatar o cordão decepado pela morte de minha mãe. Sinto-me acolhida e segura. Eu não estou só.

     Maria foi para casa, mas somente após longa insistência com o objetivo de me alimentar e me por para dormir. Agora são pouco mais de três horas da manhã. O sono já se dispensou de mim. Levanto da antiga e nova cama. Afasto a cortina, madrugada de lua cheia domina o espaço. Céu reluzente com estrelas faiscando. Abro a janela. Brisa fresca invade meu corpo. Desço para preparar-me uma xícara de chá. Ao passar pelo corredor, paro diante de uma porta fechada. O retorno juvenil é imediato. Entro. De súbito o meu interior ilumina juntamente com as luzes do quarto. O assombro da revelação me devolve a clareza. Ainda há vida para se viver.

     “O esconderijo da Luna”, assim meu pai chamava este lugar. No centro do quarto, um cavalete com um quadro que começou a ser pintado por mim, há doze anos. O esboço de um autorretrato. Passo alguns minutos meditando através desse quadro que se faz espelho. O reencontro é provocado. Mais de uma década se passou. Volto para recolher o que de mim abandonei, desprezei. Volto para terminar o meu retrato.

     Pego a paleta de pintura. Distribuo sete cores de tinta ao seu redor. Sento frente ao quadro e deixo que a revivescência aconteça. Com o pincel língua de gato distribuo uma cor bege que dá formato ao rosto e me ajuda a superar o medo. Com a cor preta desenho fios de cabelo que preenchem o vazio e salientam a dor. Na busca de mim, com o verde, incorporo o busto. Como uma recém-nascida, perfaço os olhos com um límpido azul. No meu avesso me redescubro. Na minha tragédia me reinvento. Vou ganhando cores e explorando o adormecido. Encontro uma tímida água doce represada na rocha dos doze anos. De maneira instintiva, com meu próprio dedo, pego o vermelho da paleta e dou cor aos lábios do meu retrato. Tinta vermelha que se faz batom. Esqueço as pedras e faço cascata do fio d’água. Uma mulher nasce com 38 anos. Uma nova história começa para mim.

Gabriela Buraick

14 comentários Adicione o seu

  1. Você tem o dom! Nunca se esqueça disso!

    Curtido por 3 pessoas

    1. Me lembrarei quando preciso for.
      Obrigada!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Talita disse:

    Nossa Gabi, esse foi um dos melhores textos seus que já li. Me emocionou, muito intenso. A sensação que eu tenho é que você escreve como quem tece um bordado. Você realmente tem o dom. ✨💕😘

    Curtido por 3 pessoas

  3. macalder02 disse:

    Não é de admirar ficar extasiado com a sua escrita. É realmente um privilégio seguir o seu blog. Parabéns embora desnecessário dizer

    Curtido por 2 pessoas

  4. Olá!
    Meu nome é Michelle Graça e sou a autora do blog Michellândia.
    Estou aqui para te fazer um convite especial: iniciarei a produção de uma postagem sobre PERRENGUES DE VIAGEM, e gostaria muito que você participasse.
    É tudo bem simples:
    Primeiro preciso saber seu nome, idade e o local onde o perrengue aconteceu;
    Depois é a hora de você contar sua história, algo em torno de 1 ou 2 parágrafos está excelente 😉
    Após isso, nos conte o que você aprendeu com esse perrengue.
    Por fim, mande uma fotinha do local pra ilustrar a historia.
    Lembrando que na descrição do texto e sobre você é bacana colocar um resuminho do seu blog e o endereço, para que meus leitores te conheçam e possam te seguir também
    Desejo muito que você participe!
    PS: Se quiser um exemplo de como a publicação ficará, fiz algo mais ou menos na mesma proposta com essa postagem :

    https://michellandia.com/2017/01/11/10-lugares-para-voce-conhecer-em-2017-segundo-meus-amigos-viajantes/

    Muito Obrigada e espero contar com seu perrengue…rs!

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  5. Hi there!🙂 Your writing is beautiful and I look forward to reading more of it!

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  6. semassuntoweb disse:

    Eu só tenho uma coisa para te dizer: menina, tu é foda! To aqui no teu blog bem tranquila só observando teu sucesso e aplaudindo. 👏🏻👏🏻👏🏻

    Curtido por 2 pessoas

  7. Escrita impecável e belíssimo texto. É isso aí, independente do que aconteça, sempre há vida para se viver!

    Curtido por 1 pessoa

  8. Lucas disse:

    Estou admirado em ver sua maestria na escrita…parabens mesmo…não esperava menos.. abçs..Deus abençoe

    Curtido por 1 pessoa

    1. Lucas… Lucas… Lucas…!?
      Adoro esses comentários um tanto anônimos. Grata, mesmo eu não sabendo direito a quem devo agradecer! rs

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  9. mariel disse:

    Estonteante, como a traição

    Curtido por 1 pessoa

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