O meu nascimento 

Sinto-me aquecida, mas algo me incomoda. Já não suporto mais. Tento esticar-me, abrir os braços, mover as pernas. Pouco consigo. É demasiadamente apertado onde me encontro. Percebo-me sufocada. Necessito sair. É chegada a hora.

Ouço um grito. Encolho-me. O medo desperta em mim. Ouço outro grito. A dor está exposta. Sou eu a culpada? Não quero ser motivo de lágrimas. Estou assustada, não desejo sair, quero me manter aqui, protegida. Tenho medo do que me espera. Não preciso nascer. 

Algo me empurra. Ela me expulsa. Ela se contrai para me rejeitar. Ela já não me quer mais aqui dentro. Meu peito queima. Meu corpo inteiro está em chamas. Estou sendo expelida. Alguém me segura, me puxa, me tira do ventre. “Por favor, me largue, me reconduza, eu não desejo sair.” Sinto, pela primeira vez, a precariedade da condição humana. Uma luz me cega. Grito sem necessitar da palmada. Um oceano de lágrimas escorre dos meus olhos prematuros. Existir dói. Ser me rasga a alma. O cordão que me alimentava é friamente decepado. “Reatem o cordão, eu quero retornar ao ventre materno.” Esperneio, soluço. Ninguém atende meu pedido. Até que… Colocam-me nos braços da minha genitora. Cesso o choro. Fui enlaçada na proteção. Colo quente e macio. 

07 de outubro de 1995, 17 horas e 27 minutos. 

Nasci. 

Gabriela Buraick

9 comentários Adicione o seu

  1. behmota disse:

    Ual… amei os efeitos e sensações que seu texto me fez sentir quando estava lendo. Parabéns!

    Um abraço

    Curtido por 3 pessoas

  2. Pablo disse:

    Sobrinha querida vc é maravilhosa em prosa e verso.

    Curtido por 1 pessoa

  3. macalder02 disse:

    Você pega uma história profunda de uma nova vida na forma de poesia e isso é muito doce.

    Curtido por 2 pessoas

  4. Tiago Medina disse:

    Existir dói, mas poucas coisas são melhores que um colinho de mainha

    Curtido por 2 pessoas

    1. Acho que ainda não inventaram coisa melhor que colinho de mainha (não posso dizer o contrário, ela tem um blog e depois vem tirar satisfação).

      Curtido por 3 pessoas

  5. Rafael Sena disse:

    Texto maravilhoso! Delicado e intenso!

    Curtido por 2 pessoas

    1. És um querido! Obrigada, Rafael

      Curtido por 1 pessoa

  6. Talita disse:

    Aiiii que doçura!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Tu que é um docinho, amiga!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s