O meu destino cruel 

O homem é um animal social. Dizem que foi Aristóteles o primeiro a soltar essa. Acabo de entender “na pele” o porquê. Não precisei de grandes horas de estudo ou análises. Bastou decidir tomar um açaí, sozinha, numa lanchonete movimentada. Querido leitor, sabes o que é uma lanchonete? Não lhe subestimo, acredite. É que sempre achei essa palavra simples e estranha, lhe peço perdão se a coisa também não lhe soa bem, é que não encontrei nada melhor. Estranho? Sim. Acho que lanchonete me lembra de quitinete (aquela coisinha pequena que universitários moram), ou porque um lanche e só um lanche. Não sei, mas não gosto. Talvez lancheria? Acho que soa menos pior, mas agora, já foi. Desculpe, não vou reescrever, não hoje. 

Voltando ao que realmente me interessa, cheguei à lancheria quando à escuridão da noite já se fazia plena. Sentei-me à mesa de número 12, na área externa. Queria sentir a brisa da noite em meu rosto, mas tudo que consegui foram alguns olhares de pena. De primeira já me senti incomodada, fruto de mais três cadeiras vazias em volta da mesa, como se dissessem: aqui não senta apenas uma pessoa, levante-se e dê lugar para a felicidade alheia. Fiz de conta que não ouvi, permaneci ali, intacta, na espera do garçom (outra palavra estranhíssima). O tal moço do cardápio (assim acho melhor) passou por mim (ignorando a minha presença) com destino à mesa ao lado. Aguardei alguns minutos e, quando ele ia saindo, eu disse:

 – Olá! – Talvez tenha dito um pouco alto demais, pois mais gente do que eu havia planejado olhou para mim, inclusive o homem do cardápio. Ele veio em minha direção, dizendo:

– Já vai pedir, moça?

– Por que não? – Repliquei com um sorriso simpático. – Quero um açaí com mousse de maracujá.

– Ok, só um? – Pediu enquanto rabiscava num bloquinho.

 – Sim, apenas um açaí com mousse de maracujá de 500 ml. – Respondi cordialmente.

– Só pra ti? – Disse o homem do cardápio arqueando a sobrancelha direita.

– Sim, somente para mim. – Respondi, mais uma vez, cordialmente, porém sem vestígios de um sorriso.

E ele saiu em direção a parte interna da lancheria, me deixando mais sozinha do que nunca.

Confesso que essa conversa com o homem do cardápio me deixou aflita. Que diabos. Qual o problema de tomar, sozinha, um açaí? Por acaso é ilegal? Imoral? Incomum? Na mesa frente a minha estavam exatas quatro pessoas, talvez cinco com a mulher que eu suspeito gravidez, quem sabe até seis?! Percebi que falavam de mim, pois um ser do sexo masculino cochichou no ouvido de outro ser do sexo masculino e os dois olharam para mim. Homem é animal que não sabe disfarçar, Aristóteles devia ter soltado essa também. Mas lembro de outra coisa que ele soltou, algo com “ser feliz é bastar-se a si mesmo.” Triste. Eu não me basto, sou repleta de faltas, só o outro me completa. Hoje estou pela metade.

Talvez eu não seja narcisística o suficiente. Para se bastar é preciso de grande narcisismo. O que Clarice Lispector chamava de “alegria de ser”. Talvez eu queira ser com o outro, não gosto de ser só. Qual a alegria de ser só? Hoje eu quero somar, hoje eu quero ser mar. Eu quero ser uma das moléculas que cria a imensidão azul. O que é uma molécula sozinha? 

O homem do cardápio interrompe meu pensamento me entregando o açaí com mousse de maracujá. Quase peço para ele fingir que é meu amigo e sentar-se ao meu lado. Sinto ânsia em cessar os olhares de pena que me cercam. Mas apenas agradeço. Ao averiguar a certeza do meu pedido chego à conclusão de que nem ele está sozinho. Só agora percebi que não pedi somente açaí ou somente mousse de maracujá. Pedi a união, pedi o encontro, pedi a convergência. Pedi o que eu desejo para mim. O inconsciente e suas falhas. 

Pego uma colher da mistura e a destino à minha boca. Schopenhauer, seu miserável. Tu me disseste que o que temos dentro de nós era o suficiente para alcançarmos a felicidade. Chego à conclusão de que não sou um “espírito excepcional”, sinto-me sedenta por companhia humana. Eu não fui feita para a solidão dos fortes, não hoje. É raro eu desejar o outro. É tão raro que provavelmente amanhã acordarei retornada a ser só. E os outros 364 dias do ano eu desejarei estar somente em minha presença. Mas hoje: não. Hoje eu só queria a companhia que liberta. Hoje eu queria aquele abraço que me aconchega, aquele beijo que me dá sentido, aquele olhar que faz a vida valer a pena. Infelizmente querer está bem longe de poder (umas sete mil milhas, no meu caso). 

Hoje eu brigo com Schopenhauer, mas em uma, apenas uma, lhe dou razão: o destino é mesmo cruel. 

Gabriela Buraick

14 comentários Adicione o seu

  1. mariel disse:

    Lancheria é como se diz lanchonete no rio grande do sul. Bem-vinda!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Ah, minha alma pertence a esse lugar!

      Curtir

  2. E então e então e então. Poisintão. Veja ou mireveja como deveria dizer lá o Riobaldo que gostava de Diadorins: gostei do açaí com o maracujá e da sensação de estranheza que a crônica me passou. Acho que já passei por alguma coisa assim. Quer dizer nada, é só assim um jeito de ver a coisa. Gostei do que você escreve e como escreve. Um abraço? Certamente. Um, bem grande.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Por onde começo? Pelo fim, certamente. Algum problema? Sei que níquites (HÁ!). Eu poderia te dizer muitas coisas. É quase um dever, confesso.
      “Poisintão”? Digo apenas uma pontinha do tudo: tu é incompreensível (para a maioria), exótico e louco. Convenhamos, meu caro, isso é incrível.
      Abraçados.

      Curtido por 1 pessoa

  3. macalder02 disse:

    Coisas simples se tornar algo grande quando você escreve. Genial sua história.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Meu coração fica feliz pelo seu olhar generoso.
      Grata.

      Curtido por 1 pessoa

  4. Can you put a translator on your blog, then I will be able to read them in English. Thanks. Kim

    Curtido por 2 pessoas

    1. Thank you for the tip, your request has been answered! Have a good reading!

      Curtido por 1 pessoa

  5. AK disse:

    É uma sensação terrível ter uma cadeira vazia à nossa volta, quatro então é demais. No entanto, diz o poveco: mais vale só do que mal acompanhado.

    Acho, todavia, e tendo já passado por essa situação como inúmeras outras pessoas, que os olhares de pena que nos deitam não são verdadeiros olhares de pena. São olhares passageiros e involuntários, desprovidos de qualquer emoção e, às vezes, até de atenção.

    Talvez seja mesmo a nossa solidão que os transforma em olhares de pena. Estar sentando sozinho num café, num restaurante ou numa mera esplanada é uma exteriorização clara de solidão. Alguém sozinho fica mais vulnerável e talvez por isso os simples olhares nos incomodem. Estamos vulneráveis e até os olhares nos magoam…

    Mais um grande post…
    Francisco Fernandes

    Curtido por 1 pessoa

  6. Lunna Guedes disse:

    Eu gosto imenso de cadeiras vazias e lugares cheios. Gosto da sensação de solidão que culmina em momentos assim. Os olhares em minha direção e o que não se diz. É bastante instigante. rs

    bacio

    Curtido por 1 pessoa

  7. Eu realmente odiei Lancheria.

    “ser feliz é bastar-se a si mesmo.” Triste. – Perfeita conclusão kkkkk

    Tu tem um nível de subjetividade maravilhoso. Imagino se ao invés de discutir com Aristóteles ou Schopenhauer na sua cabeça se eles estivessem sentados a sua frente, invisíveis a todo e qualquer olhar além do seu. Apontando seus dedos enrugados e dizendo suas frases mundialmente e historicamente impactantes na sua cara. Eles não iriam parecer tão especiais como são, seriam apenas fantasmas inconvenientes!

    Curtido por 1 pessoa

  8. sinopticos19 disse:

    Pode me convidar, da próxima vez que for a uma lanchonete, ou a uma lancheria.
    Não me sinto muito confortável sozinho entre pessoas que estão em grupos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s