Um texto que não necessita de título 

Caminho de pés descalços pela areia da praia. Uma sensação de paz peregrina de mãos dadas comigo. Sorrio sem mostrar os dentes. O vento me deixa leve, me leva e me traz. Percorre minha pele fazendo com que meus pelos fiquem eretos. Sensação muito experimentada na presença dele. Quanta saudade resta agora…

Ele trazia na alma uma orfandade incurável que eu conhecia como a palma da minha mão. Ele foi causa dos meus descobrimentos. Fui colonizada, da mesma maneira que Portugal fez com o Brasil. 

Éramos um só corpo em dois. A fusão que contrariava a física e a própria imortalidade terrífica. Enquanto o tempo parecia pouco, a gente se parecia muito. Éramos congregação mútua, simbiose total. Nossa única discrepância era que eu (somente eu) amava Caetano Veloso. 

Guardo a rolha do primeiro dos incontáveis vinhos que tomamos juntos. Ah, se as garrafas falassem!

Trago na bolsa um dos livros que ele me deu. Sento na areia ao lado de uma árvore que me faz sombra. Meus olhos percorrem as mesmas palavras que um dia foram lidas por ele, para mim, em voz alta. Leio cada palavra com o som da sua voz. Quase consigo tocá-lo… Será que ele faz o mesmo com o livro do Pequeno Príncipe que eu lhe dei?

Vivi a totalidade de um amor com história pregressa. Um amor fadado à desgraça que marcou as histórias dos grandes amores que a humanidade conheceu.

A febre que reside nas saudades tem me feito passar mais tempo na cama. Delírios de um amor doentio. Como disse o meu outro amado Bukowski “o amor é um cão dos diabos”, acrescento: que eu jamais abdicaria. 

A vida vale a pena. Eu sei. A espera também. 

O que tenho é quase nada, mas seguro fortemente com as duas mãos. É minha sina proteger os rastros de esperança deixados pela estrada. 

Meu homem, minha cura. Homem que o mar leva com rapidez, o vento faz retornar com demora, e a minha alma grita seu nome, por nada menos que necessidade. 

Gabriela Buraick

17 comentários Adicione o seu

  1. Anônimo disse:

    Putz!!! Que texto. Afetou e subverteu os recônditos da minha alma…

    Curtido por 4 pessoas

  2. AK disse:

    Olá Gabriela, cumprimentos portugueses.
    Vim parar ao teu blogue porque o WordPress me diz que o teu site é meu seguidor (não sei se é verdade ou se são manobras da WordPress, confesso). Contudo, em boa hora vim aqui dar uma vista de olhos.

    Isto porque o teu blogue (o teu diário virtual?!?!?) não é fantástico, não é maravilhoso e nem sequer é sensacional. É único. E no mundo da prosa, no mundo da escrita e no mundo dos diletantes literários, como nós, ser único é bom.

    A tua escrita transmite propositadamente uma pessoalidade e uma intimidade singulares. Na maior parte dos casos, é difícil não sentir empatia pela pessoa, real e não imaginária, que se escreve em cada linha dos teus posts. És dona de uma capacidade notável de sensorialização e nota-se que tens prazer em transmitir aos outros sensações e emoções.

    Óbvio que, assim como eu e assim como cada pessoa que escreve, és por vezes intoxicada (no bom sentido) por obras que lês e outras vezes, talvez fruto deste último, desces da tua singularidade e interrompes a tua originalidade criativa (Tem momentos em que leio os teus posts e me deparo com o modo de escrever de Mia Couto, por exemplo). Enfim, comparar-te a um dos meus autores favoritos talvez seja mais um elogio do que uma crítica construtiva na realidade, ou talvez seja apenas um erro meu presumir este tipo de intoxicação ou uma tontice ainda maior presumir que lês Mia Couto; mas, sinceramente, faço-o apenas porque gosto de reconhecer talento quando o vejo.

    Pergunto-me apenas se pensas em escrever livros e no tom dessas eventuais obras.

    Continua a escrever, que eu continuo a ler.

    Francisco Fernandes
    (https://asesereis.wordpress.com/)

    Curtido por 3 pessoas

  3. Bom dia, Francisco! Cumprimentos brasileiros.
    Aqui diz que somos seguidores um do outro, mas de qualquer forma: obrigada WordPress! Apesar de eu querer pular imediatamente para a parte do Mia Couto, sigo à risca o seu comentário.
    Obrigada pelos elogios, minha alma realmente ficou sensibilizada. Eu não sou muito boa com agradecimentos (até para escrever fico um tanto sem jeito), mas saiba que li tuas palavras as três da matina e não consegui mais dormir por muito tempo. Minha mente fez longas viagens após o seu comentário!
    Alguns textos eu tive a tremenda sorte de não só escrever, mas viver! Outros são frutos da minha imaginação, mas como disse Mário Quintana: “a imaginação é a memória que enlouqueceu”. Eu moro nas entrelinhas, em cada palavra escrita eu resido.
    E sobre o Mia Couto, como agradeço?! É óbvio que eu já bebi desta fonte (e não foi pouco)! É impossível viver (ler para alguns) Bartolomeu Sozinho em “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, e não guardá-lo comigo para todo o sempre. Volta e meia Bartolomeu e sua dor visitam meus momentos de escrita. Mas eu também bebo de outras fontes: Antoine de Saint-Exupery, Rubem Alves, Fiódor Dostoievski, Jane Austen, Hilda Hilst, Shakespeare, Gabriel Garcia Marquez, Charles Bukowski, Rubem Fonseca, Albert Camus, Eduardo Galeano, minha diva Clarice Lispector (que não raramente dorme e acorda comigo na cama), dentre outros.
    Ah, eu ainda não sou ninguém… Tenho apenas 21 anos e uma infinidade de livros para ler. Me considero apenas uma leitora assídua, nada além disso (por enquanto). No momento estou escrevendo a história de Elizabeth, uma mulher que possui um grande segredo que a impede de amar novamente! O tom? Ouso dizer que Mia Couto poderia folheá-lo…

    Curtido por 2 pessoas

    1. AK disse:

      Olá Gabriela.
      Parece que os meus instintos estavam certos…
      Fico contente por encontrar mais uma admiradora de Mia Couto (Jesusalém e o seu afinador de silêncios ainda hoje ecoam em mim também).

      Pessoalmente, eu prefiro histórias mais mergulhadas em fantasias e mundos mirabolantes carregados de acção; ainda que não deixe de acompanhar alguns clássicos interessantes e demais livros contemporâneos sobre a condição humana. Infelizmente, não conheço a obra dos outros autores que relevas, mas reconheço os nomes e encará-los-ei como boas sugestões para futuras leituras.

      Fico contente por saber que há mais além do teu blogue, especialmente uma história a ser tecida.

      Existem muitos sites sobre escrita criativa (os sites americanos são os melhores na minha opinião) que contêm às vezes pequenos conselhos para quem como nós está a começar. Uma boa base de partida é a inscrição no pinterest e procurar o tema de escrita criativa. É um universo a explorar, se te interessar…

      Sei que o mais difícil às vezes para quem escreve é a solidão criativa e o facto de duvidarmos por vezes (senão mesmo a maioria delas) sobre a real qualidade de cada linha do que escrevemos. Perguntas como “Será que tá bom?”, “Será que é preciso mais alguma coisa?” “Será que as pessoas vão gostar?” afligem-nos, mas tem isto em mente:

      Um autor é alguém que começou a escrever e nunca desistiu.

      Ademais, se precisares de trocar impressões sobre enredos, sobre alguns truques narrativos ou se quiseres apenas falar sobre a maravilhosa sensação de escrever, tens aqui um amigo lusitano.

      Francisco Fernandes

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  4. Emilly Vass disse:

    Sua escrita é arrebatadora soa como as canções de Frédéric Chopin, sua sutileza em cada palavra remete a Michelangelo em sua singularidade! Ainda não se foi criado tal adjetivo que eu possa utilizar para descrever o quão você foi incrível neste texto magnifico! Apenas lhe digo: Muito obrigado!!!

    Curtido por 4 pessoas

    1. Não me canso de ler teu comentário! É claro que um carinho no ego sempre cai bem, mas dessa vez… Que carinho! Palavras se tornam inócuas para descrever tal sensação que me ocorre… Apenas lhe digo: a grata aqui sou eu!!!

      Curtido por 1 pessoa

  5. I speak English. Perhaps you may care to add translate to your blog. Regards, Carl

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  6. Uma declaração de amor como eu acho que deve ser: entrega total. Só os muito corajosos são capazes de amar assim. Obrigado por mostrar que não estou sozinho na inquietude da saudade…

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  7. MUY GRACIAS POR COMPARTIR

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  8. Simplesmente encantador…

    Curtido por 1 pessoa

  9. Eita! Se esse homem existe que sorte a dele! Isso que é declaração de amor

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ahh, quem dera, Igor! A sorte seria minha por ter vivido um amor grande e verdadeiro! Uma peninha que seja apenas ficção…

      Curtido por 1 pessoa

      1. Pode me chamar de pessimista ou doente, mas eu acredito que na mente de um romântico é tudo mil maravilhas… haha eu ando de mal com o amor, mas é coisa minha… E eu espero de verdade que você encontre alguém com esse perfil 🙂

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  10. Amar é pouco,para dizer o quão extraordinário é ler um post como esse!
    Sucesso pessoa linda!

    Seus posts, e seu blog são de uma singularidade excepcional !
    Estou simplesmente fascinada,por todo prazer que é estar aqui.
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

    1. A recíproca é verdadeira quanto ao seu comentário! Muitíssimo obrigada!!!
      Eu fico lisonjeada que tenha gostado e, acredite, o prazer é todo meu!
      Beijos

      Curtido por 1 pessoa

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