A tristeza de Zé Raimundo 

Enxergo a tristeza em seus olhos. Não adianta, tem gente que mesmo quando tenta sorrir se faz triste. É a essência. Quando a alma é triste o sofrimento é infinito. Quando a alma é triste o ser vive deslocado, não encontra morada ou repouso. Tem gente que nasce mergulhada em pranto profundo. Zé Raimundo é um desses.

A tristeza de Zé Raimundo me contamina. Schopenhauer uma vez se perguntou como era possível que o sofrimento que nem era dele o afetasse com tal força a ponto de paralisá-lo. Sinto-me paralisado. A netinha do Rubem Alves caia aos prantos toda vez que via alguém chorando. Me sensibilizo da mesma maneira. Ao ver seu Zé sofrendo, acabo por descobrir as verdades da minha condição humana. O sofrimento também é espelho.

Seu Zé perdeu a esposa, antes a morte a tivesse levado, mas quem a levou foi o florista da esquina. Roubou a rosa do seu Zé. Dizem que a morte do ser amado causa menos dor que a traição. Eu não tenho nenhuma dessas experiências, mas sei que Zé Raimundo passará por mais essa, sempre teve simbiose com o sofrimento. Uma vez me disse ter conhecido as lágrimas ainda no conforto da vida uterina. E eu não duvido.

Recordo-me de outra cena registrada na minha memória. Dia em que o filho único do seu Zé partiu. Esse sim levado pela morte. Homem de boa postura que encontrou o destino fatal da curva. Desde então Zé Raimundo passa mais tempo no bar da outra esquina do que na própria casa.

Zé Raimundo é geneticamente privado para a felicidade. Nessa criatura não há espaços para esperanças. O sofrimento sedimentou suas mais profundas estruturas. Para Zé Raimundo só resta esperar. Abraço seu Zé, meu camarada. Falo baixinho:

Mais cedo ou mais tarde a morte te dispensa desse ofício tão duro de ser Zé Raimundo.

Gabriela Buraick

6 comentários Adicione o seu

    1. Isso aí. Força pro Zé! 💪🏼

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  1. Gostei de Zé Raimundo, sem outro ofício que não o de zerraimundar. Não é destino e nem sina, é obrigação. E pesa? Sei lá. Entendo nada de fados. Sinta-se abraçada, pufavô.

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    1. O Zé que existe em mim foi carinhosamente abraçado. E digo mais: nem necessitava do doce “pufavô” pra isso.

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  2. Deixo aqui um abraço ao seu Zé.

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  3. Deixo o meu abraço ao seu Zé também

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