Para minha mãe 

     Pergunto-me se existe cuidado humano que seja capaz de nos privar do desabrido da existência. Lembro, instantaneamente, de minha mãe. O ventre materno exila-nos da precariedade da condição humana. O talho no cordão umbilical torna a alma misteriosamente solitária. Nascer consiste em receber a imposição da superveniência.

    É somente em seu porto que encontro alento e aconchego. Local em que os princípios cartesianos tornam-se inúteis e a minha metafísica encontra plenitude. Minha mãe teceu-me no ventre e moldou-me fora dele. Seus ensinamentos e cuidados não negligenciaram o crepúsculo das horas. O conforto de minha matriz, mesmo quando os subterrâneos habitam em mim, encontra amparo.

     Minha mãe é mulher forte e de sensibilidade rara. Sua expressão é pura. Seus olhos profundos parecem ter visto de perto as tristezas do mundo. A voz doce coincide com a ternura que no coração reside. Retorno no tempo. Recordo-me dos momentos que lia meus livros no colo de minha mãe. Meu corpo franzino e minha mente a rodopiar outros mundos na segurança do colo que me cercava. Recebia a crueza literária enquanto uma mão suave percorria os meus cabelos, reatando o cordão da sobrevivência.

     Minhas primeiras palavras e rabiscos foram dedicados a minha mãe. Mais de vinte anos se passaram e ela ainda guarda as minhas primeiras cartas, poemas e desenhos. Lembro-me de um em especial que dizia “tu és minha joia rara”, com um anel desenhado ao lado e mais algumas palavras na tentativa falha de uma boa rima. Mais que uma lembrança doce, é a prova de que a nossa simbiose nunca terá fim.

     Acredito que a maior prova de amor de uma mãe é não fazer de um filho o que ela gostaria que ele fosse. O ser humano tem essa tendência, fazer do outro aquilo que queremos. Requer sabedoria não seguir essa máxima. Tive sorte. Não fui imposta a proteção que desprotege. As suas amarras são frouxas, o cordão é simbólico. Maternidade sábia. Içami Tiba dizia que filhos são barcos. Minha mãe dizia que eu era um navio dos mais grandes. Passei muito tempo no porto. Um grande navio requer preparação, abastecimento e provisão para cumprir seu destino. Recolha a âncora. Eu estou pronta, chegou a minha vez de aventurar-me ao mar.

 

Gabriela Buraick

17 comentários Adicione o seu

  1. orfandades disse:

    Meu amor, existem elos humanos que apenas um coração materno é capaz de experimentar, mas pelo imensurável vínculo que nos congrega, eu sinto que o seu cuidado de filha, por mais inacreditável que possa parecer, é na mesma medida que o meu cuidado de mãe. A nossa simbiose é mútua! 

    Eu tenho muito orgulho de ti, minha princesinha. Você é muito mais do que qualquer coisa que eu poderia imaginar ou desejar! Incrivelmente inteligente, espetacularmente linda, feliz, estudiosa, atenciosa e amorosa! 

    Todos perguntam se eu não me arrependo de ter tido apenas um filho, e eu respondo sem sombra de dúvidas: não! Além de você valer por mil, ter só você em casa fez com que nosso laço se estreitasse e fortificasse. 

    Te ver crescendo foi a coisa mais incrível que a vida já me proporcionou. 

    Eu me lembro muito bem (inclusive tenho todas as provas) das suas primeiras palavras escritas que eu fiz questão de ensinar! Te ver escrevendo assim com apenas 21 aninhos me mata de orgulho! Como será daqui 10 anos? E daqui 20? Será que eu vou te compreender? 

    Tudo que eu desejo é estar presente no seu futuro! Sonhando contigo e acreditando nos seus lindos projetos. 

    Aguardo ansiosamente o livro que você está escrevendo! Eu acredito em você e na sua capacidade! Vamos alcançar esse projeto juntas!!!

    Te amo infinito vezes infinito! ❤️

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    1. Olha só, conseguiu me deixar sem palavras!!! Obrigada por ser minha mãe! Te amo infinito x infinito + um! 💙

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  2. philipfontana disse:

    “Trinta & cinco” looking good!!!!!!!
    Phil

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  3. Outro dia escrevi um texto chamado “Primeiros escritos, primeiros rabiscos.” falando exatamente das primeiras coisas que a gente escreve na vida, coisas que geralmente são direcionadas a nossos pais.
    Belo texto.

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    1. Olá, Dilvo Rodrigues.
      Li teu texto (e mais alguns). Escrita de doce sensibilidade e exímio talento. Fez com que eu me sentisse uma sortuda por ter meus primeiros rabiscos guardados!
      Saiba que é um prazer tê-lo aqui.

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      1. Obrigado pelos elogios! Esses objetos que contam nossa história são um tesouro. Se a gente perde, nem o mapa mais detalhista do mundo ou o pirata mais ardil é capaz de achar.
        Prazer o meu!

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  4. as logrado expresar tus sentimientos gracias por compartir

    Curtido por 1 pessoa

  5. Lunna Guedes disse:

    Minha primeira vez aqui e me encantei com esse escrito. Acho que a maioria dos pais tentam fazer o melhor, mas uma boa parte traz em si o melhor que lhes deram. Nessa soma reside o perigo, os erros e também os acertos.
    Admiro muito as mulheres que conseguem cortar o cordão umbilical, mas não é fácil, reconheço. bacio

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  6. mauroms disse:

    Lindas palavras, Gabriela, mãe é vida, deu a vida aos filhos amados e é a nossa vida, mãe é amor, carinho, força, mãe é paz, é para todas as horas como também o somos para ela .
    Rebloguei este post maravilhoso porque vale a pena. Abraços, 🙂

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  7. naturalese disse:

    Lindíssimo!

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