Para minha heroína, Maria 

Paro o carro diante do sinal fechado. Estou exposta. O mundo me afeta, mas eu não desejo camuflar a sensibilidade. Eu me recuso à miséria humana de estar acostumada com os absurdos que me cercam. Abro a janela por onde permito que o sagrado adentre para repousar em minha visão. Olho para o lado e enxergo.

Sentada no ponto de ônibus, uma mulher revela a sua feição cansada e humilde. Sua cabeça repousa num dos pilares que dá sustento a estrutura de espera.  Presumo que esteja aguardando a condução que a levará para a sua morada depois de um dia de trabalho intenso. Um dia limpando objetos que não são de sua posse? Um dia cuidando de filhos que não são seus?

Eu a observo enquanto o sinal tem a cor escarlate. Quero saber o seu nome para encurtarmos as nossas distâncias. Maria lhe cai bem. Ela olha para o relógio atado ao pulso. Maria tem pressa, é curto o tempo que lhe sobra para estar com os seus. Carrega duas sacolas plásticas que revelam alimento. Uma revelação da qual ela não teme. Maria está levando para casa a comida que será posta sobre a mesa.

Em breve Maria estará diante do seu fogão, dando destino ao conteúdo das sacolas. Filhos que eu não conheço sentarão diante da mesa. O banquete será servido, a pobreza será esquecida e o amor encontrará uma cadeira. Desejo fazer parte dessa poética que meus olhos não alcançarão.

Desvio o olhar para o sinal, ainda escarlate. Penso nas criaturas sobre-humanas que dotadas do extraordinário povoam, desde sempre, o nosso universo. O limite humano é esquecido na construção do herói que mistifica e transforma a realidade. Um herói, para uma criança, é um mundo a parte. A idealização onde joelhos esfolados não existem e as fragilidades humanas são redimidas.

Sair do contexto de heróis requer esforço. Enfrentar a realidade nua e crua, sem as facilidades da fuga, requer coragem. A contradição da existência está posta. Maria, na sua simplicidade incognoscível de ser mulher, se faz heroína diária. Maria não exala fogo pelos olhos ou salta de prédios, mas subverte a própria realidade levando o alimento para casa.

Uma buzina invade o meu raciocínio. O sinal ganha esperança. É necessário continuar a minha estrada. Pelo retrovisor despeço-me da fisionomia que me envolveu sem pedir licença. Sinto vontade de retornar a estrada, conversar com Maria, saber dos seus. Quero, com ela, dividir o sagrado que me foi revelado. No entanto, o meu destino não me permite demoras. Sigo o meu caminho, mas Maria segue em meu coração. Maria, mulher cheia de graças. Maria, minha heroína.

Gabriela Buraick

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