Carta ao meu pai

Estou lhe escrevendo essa carta porque necessito lhe confessar os meus medos. Sinto que a minha vida é um baile de máscaras, mas sem a parte da festa. Por isso, essa carta vem sendo escrita há três semanas. Foi preciso coragem para sentar nesta cadeira e arrancar algumas frases. Escrever uma vida inteira dentro de um envelope que seria aberto por suas mãos deu-me um tanto de temor. Sem contar que a escrita é perigosa. Palavras que podem ser lidas e relidas, coração revelado em papel. O segredo posto à prova. Eu quis ser o menos inoportuno possível, não queria lhe pesar com a minha presença, mas também carecia de encontrar alguém a quem eu pudesse retirar essa máscara que há muito tempo colocaram em minha face.

Em primeiro lugar, eu ainda não sei o que desejo com essa carta. Quero apenas cessar a inadequação em que vivo. Não guardo rancores do abandono. Não existem entrelinhas nas minhas palavras, eu não quero mais ocultações. Talvez por isso eu esteja aqui. Eu cresci no infortúnio da dor e da lastima. Não espero reparos, apenas anseio por compreender qual foi o estatuto que deu fim ao meu início. Somente após saber da sua existência o que era pagão ganhou batismo. Eu doía sem saber o nome da minha dor. Meu inconsciente caminhava pelo desabrido da rejeição, sem nunca ter me contado sua lei interior.

Desculpe-me pela audácia de ainda não ter me apresentado. Meu nome é Daniel Castilho, tenho vinte e seis anos, trabalho como professor e sou o seu filho. Presumo que a minha existência não é surpresa, uma vez que foi o senhor que me deixou na porta da casa onde cresci, antes de me virar as costas, para sempre. Fico tentando compreender as razões que lhe conduziram ao meu abandono. Na época, com meus cinco meses de idade, eu não conseguia dizer o que escreverei agora, mas perdoe-me por ter sido necessário que a minha mãe desse adeus à própria existência para eu começar a minha. Se a minha culpa foi o motivo do meu abandono, peço-lhe perdão.

Mas, apesar de tudo, fui privilegiado. Talvez o senhor tenha tido a atitude certeira, embora eu trocasse qualquer coisa para ter sido criado pelo sangue do meu sangue. Cresci numa família feliz. Rodeada de afeto e bons costumes. A família Ferreira me acolheu como filho e eu os tornei pai, mãe e irmãos. Éramos cinco. Eu era o caçula, o que facilitou o meu distanciamento com os demais. Não tenho lamentos sobre os Ferreira, sempre fui preservado dos trabalhos do campo, desde muito cedo sabiam que eu nasci para as reflexões, assim como meu verdadeiro pai. Entretanto, apesar de muito a agradecer, a vida vivida em minha casa nunca me realizou. Sempre me senti o avesso do encaixe. Hoje, finalmente, posso compreender o porquê.

Há quase um mês tive o conhecimento de que vivi uma vida de mentiras. Uma tentativa de doação de sangue para quem se dizia meu pai me apresentou a angústia da orfandade. Sai em busca de respostas, e não descansei enquanto não descobri a verdade. Eu precisava saber quem eram as minhas raízes. Deram-me seu nome e, desde então, tenho inventado a sua presença.

Descobri muito do senhor por sua trajetória como professor na universidade em que me encontro. Segui seus passos, mesmo sem saber que era esse o caminho. Laerte, seu melhor amigo, contou-me que o senhor se refugiou como um eremita, optou por uma vida simples e restrita de contatos com a civilização. Estes são os questionamentos que pairam sobre a minha cabeça nos últimos tempos: por que o senhor abandonou tudo? Por que abdicou de mim e da vida? Por que nunca mais me procurou?

É meia noite, hora de tirar as máscaras. Hora das suspeitas serem confirmadas. Eu quero recomeçar, mas primeiro preciso me reconciliar com o meu passado que tanto me aflige. Eu necessito encontrar o meu lugar no mundo, pois este que o senhor me destinou, não é mais o meu lugar. Assim como Galeano escreveu sobre o Diego que não conhecia o mar, te peço agora: “– Pai, me ensina a olhar.” Apresenta-me a imensidão do mar, eu quero alcançar as altas dunas de areia junto a ti. Dê-me uma razão para o abandono que me isente da culpa pela morte de minha mãe.

Com afeto, Daniel Castilho.

Gabriela Buraick

3 comentários Adicione o seu

  1. cacauemel disse:

    Que texto é esse?????
    Me emocionei! Que coisa mais linda!
    Quero a resposta dessa carta!

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  2. “Eu quero recomeçar, mas primeiro preciso me reconciliar com o meu passado que tanto me aflige. Eu necessito encontrar o meu lugar no mundo, pois este que o senhor me destinou, não é mais o meu lugar.”
    Alguns textos a gente não lê! Eles que leem a gente!
    xoxo

    Curtido por 1 pessoa

  3. Mariana Gouveia disse:

    uau! texto emocionante!

    Curtido por 1 pessoa

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